
Praia da Rocha · 1974
Os telegramas
Nos anos 70, nesta casa funcionavam os Correios da Praia da Rocha. Quem diria que foi ali, com uma tenra idade, que ganhei os meus primeiros escudos.
Naquele tempo a escola primária era em dois turnos, manhã e tarde. Eu era da tarde. De manhã, para além dos habituais recados que a minha mãe pedia — ou melhor, mandava fazer —, havia o caminho até ao único minimercado da altura, na mesma rua, um pouco mais acima. Descia a rua e havia sempre uma passagem pelo correio, onde estava a D. Ant…
A D. Ant… era uma pessoa espetacular. Senhora do Sotavento, tinha vindo para ali trabalhar. Naqueles tempos, sobretudo no inverno, as pessoas conheciam-se praticamente todas, de tão poucas que viviam ali permanentemente. Parece mentira, mas era verdade. Foi assim que nasceu a amizade entre ela e a minha mãe. Quantas horas levavam as duas na conversa, enquanto eu ficava no quintal da casa onde ela morava — dava para a Avenida Tomás Cabreira e fazia esquina com a Rua dos Correios — a inventar minifutebol com mini balizas, que o quintal não era muito grande.
Daí que a pergunta saísse com toda a naturalidade:
— Bom dia, D. Ant… tem alguns telegramas para ir entregar?
E assim, de vez em quando, lá ia ganhando os meus cinco escudos. A maioria dos telegramas era para clientes hospedados nas poucas unidades hoteleiras que na altura existiam ali. Eu, claro, sempre a desejar que fossem boas notícias, a ver se vinha alguma gorjeta a mais. Não só pela piada de ser um puto a entregar, mas também por não gostar de ver as pessoas tristes — o que naquela altura me deixava duplamente triste: pela má notícia e, claro, por não haver gorjeta.